MILAGRE E REPRESENTAÇÃO EM A CANÇÃO DE BERNADETTE (1943)
Resumo
O artigo investiga como A Canção de Bernadette (1943) representa Santa Bernadette Soubirous e os milagres de Lourdes dentro do regime clássico de representação cinematográfica. Partindo do debate ontológico sobre o realismo no cinema, especialmente em diálogo com a teoria de André Bazin e com a tipologia do milagre proposta por Pedro Faissol, o trabalho analisa o desafio de filmar aquilo que, por definição, transcende a visibilidade empírica. A pesquisa articula história, hagiografia e análise fílmica para compreender de que modo o filme constrói a experiência visionária sem romper com a coerência narrativa do cinema clássico hollywoodiano. Ao examinar estratégias como o uso do campo e contracampo e a ênfase na transformação espiritual da personagem, o estudo evidencia que o milagre não se apresenta por meio da espetacularização do sobrenatural, mas é sugerido pela encenação e pela organização formal da narrativa. Conclui-se que o filme preserva simultaneamente a dimensão hierofânica do evento religioso e o regime realista de representação que estrutura o cinema clássico, oferecendo uma solução formal para o impasse da representação do milagre no interior de um sistema estético fundado na visibilidade.
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